Uma mãe recente aprende esta primeira lição quando sai pela primeira vez, para a rua, com o filho no carrinho (com a criança virada para si porque, felizmente, as investigações da psicologia confirmaram esta básica questão de bom senso...). O primeiro estranho bem-intencionado que encontra garante-lhe que a criança está irrequieta, por estar demasiado presa; o bem-intencionado seguinte, garante-lhe que a criança está em risco, por estar demasiado solta.
Lê-se muito, hoje em dia, sobre os chamados pais-helicóptero. Também já vimos atrás os chamados pára-quedistas bem intencionados ... Os pais-helicóptero envolvem-se pessoalmente em cada pormenor da existência dos seus filhos, permanentemente pairando, vôo circular, para protegerem as crianças não só do mal exterior, mas delas próprias. Se acham a Wikipédia credível, então a expressão "pais-helicóptero" é original do séc. XXI.

Claro que hoje em dia, os pais não têm grande alternativa senão planarem como helicópteros; de facto até é isso mesmo que a sociedade espera deles. Lembro-me logo dos trabalhos de casa (TPC's). Tendo acompanhado a ida para a escola de 10 crianças, ao longo dos últimos 16 anos, senti claramente a mudança no modo como as crianças são ensinadas a lidar com os deveres e os compromissos. A responsabilidade por estas tarefas foi transferida dos alunos, para os seus pais.
No "velho" séc. XX, quando o meu filho mais velho estava a começar a receber alguns trabalhos para casa (algures no 2º ano de escolaridade), recebiam um pequeno caderno (com metade das folhas) para fazerem e guardarem os seus pequenos trabalhos. Era a sua tarefa.
Se omitissem os deveres, três vezes sucessivas, na semana seguinte deveriam sofrer as consequências: o caderno tinha que ser assinado, diariamente, por um dos progenitores.
Por outras palavras: a assinatura dos pais era requerida apenas para os alunos que ainda não tinham conseguido organizar-se e responsabilizar-se pelas suas tarefas. Esta estratégia servia para ajudar na responsabilização da maioria dos alunos, e permitia uma maior proximidade naqueles que a requeriam.
Para os meus dois filhos mais velhos funcionou lindamente. Mantiveram-se bastante organizados até à Universidade.
Actualmente os alunos compram uns cadernos enormes, com argolas espiraladas, e na maioria das escolas é pedido aos pais que assinem diariamente os cadernos.
Parece-me que este foi o início dos "pais-helicóptero". Isto não ajuda nada os pais que tentam ao máximo não serem "helicópteros" [abelhudos, diria eu]. Na escola dos meus filhos estes cadernos têm que ser assinados diariamente, mesmo que não haja nada escrito no caderno, nesse dia.
A Mãe e o Pai têm mais uma rotina importante no seu dia: assinar uma folha do caderno, ainda que em branco. E os meus filhos não se podem esquecer, diariamente, de recordar ao Pai ou à Mãe de que devem assinar uma folha branca. Já não são só "pais-helicóptero", também são os "filhos-helicóptero".
O efeito desta rotina nos meus filhos, na fase do ciclo básico, foi interessante. Tornou-se uma luta para conseguir que eles se responsabilizassem pelos seus estudos. Actualmente, com os mais novos, as conversas podem ser assim:
-Mãe:«O que é que queres dizer com que 'ainda não começaste a fazer' o projecto que devias entregar amanhã?»
-Filho (em tom acusador):«Só estava escrito no caderno ...»
Termino a lição perguntando se eles estão a imaginar que, quando forem adultos, irei diariamente ao emprego deles ver se de facto foram trabalhar. A seguir sentam-se na mesa da sala de jantar e ficam a trabalhar até cumprirem todas as tarefas devidas para o dia, comigo a vigiar para que não haja escapadelas.
No fim ganham em independencia, e autonomia, embora provavelmente me acusem de ser realmente uma mãe-helicóptero, porque exijo que apontem para ter, pelo menos, nota 4 (numa escala de 5), mesmo que estejam a fazer o trabalho à última hora.
Os pais-helicóptero, tal como os bebés demasiado soltos, ou demasiado apertados, estarão provavelmente na mira dos bem-intencionados pedagogos. Mas a decisão do maior ou menor aperto, ou de esvoaçar ou não, é melhor deixarem-na com a Mãe e o Pai.»
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